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As muitas Ofélias: quando o silêncio imposto adoece a alma feminina

Patriarcado, abuso e o que o corpo revela quando a palavra é negada



 A história de Ofélia, em Hamlet, atravessa os séculos como um espelho trágico do que acontece quando a voz de uma mulher é sistematicamente silenciada. Ofélia não enlouquece “do nada”. Ela adoece num mundo em que seu corpo, seus afetos e suas escolhas pertencem aos homens ao redor: o pai que a vigia, o irmão que a moraliza, o amado que a rejeita e um sistema inteiro que nunca a escuta.


No patriarcado, Ofélia não é sujeito — é função. Serve para obedecer, para preservar a honra masculina, para ser dócil. Quando tenta amar, é acusada. Quando sofre, é desacreditada. Quando perde o pai, não há espaço para seu luto. Sua loucura é menos um colapso individual e mais a resposta psíquica possível diante de uma violência contínua e normalizada.


Essa lógica não ficou no teatro elisabetano. Ela atravessa os séculos e se manifesta nos relacionamentos abusivos contemporâneos, onde mulheres aprendem, desde cedo, a duvidar de si, a justificar agressões, a minimizar dores. O gaslighting que Hamlet exerce sobre Ofélia — confundindo, desqualificando, negando — é o mesmo que ainda hoje faz mulheres se perguntarem se estão exagerando, se são sensíveis demais, se a culpa é delas. Quando a mulher perde a própria narrativa, o corpo passa a falar. A depressão, a ansiedade, o adoecimento psíquico e, em sua face mais extrema, o feminicídio, são expressões de uma sociedade que insiste em não ouvir antes que seja tarde. Ofélia morre afogada, mas sua morte é simbólica: ela se dissolve porque não encontra margem para existir como inteira.


A mulher contemporânea carrega muitas Ofélias dentro de si — aquelas que foram silenciadas, interrompidas, desacreditadas. A diferença é que hoje há fissuras nesse sistema. Há palavras, redes, denúncias, escutas coletivas. E é aqui que a comunicação se torna um campo profundamente simbólico e político. Comunicar não é apenas informar.


É esticar o inconsciente, trazer à linguagem aquilo que ainda não foi plenamente compreendido pelo consciente, mas já foi sentido pela alma. Quando uma história como a de Ofélia é narrada, revisitada e reinterpretada, ela deixa de ser apenas tragédia individual e se transforma em chave simbólica para compreender estruturas inteiras de opressão.


A comunicação, quando ética e sensível, cria pontes entre o indizível e o dizível. Ela nomeia violências que antes eram naturalizadas.


Dá contorno ao que era apenas angústia difusa. E, ao fazer sentido do que a alma já sabia, abre espaço para que novas escolhas — individuais e coletivas — possam finalmente emergir.


 
 
 

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